REFETTORIORIO DE JANEIRO

GASTROMOTIVA

   

Revista Casabella no. 870_Página 5

O uso inteligente da simplicidade reúne os melhores chefs e os mais talentosos arquitetos - Francesco Dal Co

Todos os anos, no mundo todo, 1,3 toneladas de alimentos acabam na lixeira. Ao mesmo tempo mais de 700 milhões de pessoas sofrem de desnutrição. Este fato arrepiante fez com que surgisse o projeto Food for Soul pensado por Massimo Bottura. O primeiro passo coincidiu com a abertura do Refettorio Ambrosiano aonde um teatro abandonado em Milão foi transformado em um refeitório para servir a população carente com alimentos preparados usando restos da Expo 2015.Esta iniciativa agora é famosa mas o Food for Soul também lançou outros projetos. Em 2016 criaram o Refettorio Gastromotiva, um restaurante para reciclar o excedente da Vila Olímpica durante o período dos jogos no Rio de Janeiro. A construção no animado bairro da Lapa no Rio, foi concluída em menos de dois meses. É difícil imaginar um estúdio de arquitetura melhor do que o METRO para interpretar as necessidades e o espírito do projeto supervisionado por Bottura. Martin Corullon, Gustavo Cedroni, Helena Cavalheiro, Marina Ioshii, Amanda Amicis, Gabriela Santana, João Quinas, Luis Tavares, Manuela Porto, Rafael de Sousa e Renata Mori são os arquitetos que trabalharam com ele. Todos eles fazem parte do METRO, estúdio sediado em São Paulo fundado em 2000, que em múltiplas ocasiões colaborou com um dos poucos grandes arquitetos contemporâneos, Paulo Mendes da Rocha, absorvendo suas lições e destacando-se como um dos mais sólidos e interessantes grupos profissionais ativos no mundo hoje. Food for Soul não só promove o espaço para oferecer comida a aqueles que não o tem como também convida alguns dos mais famosos chefs internacionais, artistas e designers para contribuir para o processo em sua cozinha localizada na cidade de Milão. No caso do Rio de Janeiro, o METRO criou uma construção em uma área abandonada de 50 x 8 metros adjacente a uma pequena praça que deve ser revitalizada em breve utilizando materiais mais usuais. Uma pele de policarbonato envolve uma estrutura de aço e colunas suportam painéis translúcidos que se abrem para a praça; do lado oposto, as vigas são inseridas na alvenaria do edifício existente que delimitam o terreno. Ao lado da cozinha, no centro do salão, ficam as mesas e bancos; a extremidade oposta contém uma arquibancada com um pequeno lance de degraus em madeira, para ressaltar o fato de que este espaço pode ter usos diferentes e múltiplos. Os materiais tem sido usados ​​da maneira mais lógica e simples, porém sem ingenuidade como pode ser visto no cubo saliente que acrescenta movimento para a frente da construção virada para a rua. Não há exageros na concepção da estrutura, no fechamento, no mobiliário ou na cozinha. Todo projeto é uma demonstração das vantagens estéticas da busca pelo essencial. O uso refinado e inteligente do essencial é um dos atributos mais marcantes dos trabalhos concluídos pelo METRO, que como os de Paulo Mendes da Rocha nunca cedem à banalidade. Resultado inevitável quando o essencial não é só visto como meio mas sim como uma forma de culto. Como um todo, a espinha dorsal do projeto Food for Soul pode ser visto precisamente nesta abordagem inteligente, erudita, essencial.